jul 12

Pieter Jan van der Veld – Agrossistemas e manejo indígena na bacia do Rio Negro/AM

jul 03

Hector Mondragón – Origem e desenvolvimento da monocultura no capitalismo

MESA 2 – Aspectos sociambientais da monocultura

Junho de 2013

maio 16

Seminário Terra Alimento e Liberdade, o que você alimenta quando se alimenta?

CADA ENXADA UMA MINHOCA, QUASE TODA QUINTA UM VÍDEO!

Seminário realizado em junho de 2013, FFLCH, USP.

Mesa 1 – Hábito alimentar indústria e urbanização

SONIA HIRSCH – INDÚSTRIA ALIMENTÍCIA E SAÚDE

abr 25

Henrique Carneiro – A construção do hábito alimentar no processo de modernização

 

abr 19

Mesa 1 – HÁBITO ALIMENTAR, INDÚSTRIA E URBANIZAÇÃO

abr 19

Abertura – Terra, alimento e liberdade

abr 19

Seminário – Terra, alimento e liberdade: o que você alimenta quando se alimenta?

O seminário ocorreu em Junho de 2013, no Auditório da História, FFCLH – USP, São Paulo.

 

Depois deste tempo todo, estamos conseguindo editar os vídeos, e iremos coloca-los a disposição neste blog todas as quintas feiras.

O contexto, conteúdo e organização deste seminário estão neste vídeo de abertura.
Bora assistir!!!

http://vimeo.com/91679207

fev 04

Entrevista Vandana Shiva e Milton Rondó

Se eles podem sair aos milhões por causa das tarifas dos                                                                                    ônibus, eles não poderiam sair aos bilhões por causa dos                                                                                    preços dos alimentos?

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fev 04

Entrevista com Peter Rosset, Membro da Via Campesina fala das conquistas e dos desafios da luta camponesa no México e no mundo

10 de janeiro 2014, San Cristóbal de las Casas – Chiapas, México.

A soberania alimentar se constrói desde abaixo, desde o local, desde a parcela, a comunidade, o município, o território, é fazer por nós mesmos”.

Entrevista com Peter Rosset, técnico da Via Campesina Internacional, sobre processos de agroecologia, publicada no jornal Brasil de Fato no dia 30 de janeiro de 2014

Waldo Lao e Ana Paula Gomes

Crédito: Waldo Lao

Danificar a biodiversidade do milho no México é um perigo para a humanidade.     Crédito: Waldo Lao

 

Peter, qual é a situação atual do campo no México?

No México vamos de mal a pior, desde 1982, ano em que as reformas neoliberais implicaram na abertura do mercado à exportação, o milho e outros grãos subsidiados dos EUA a um preço muito baixo, assim como o desmantelamento de várias instituições públicas que eram importantes para a agricultura camponesa e para a vida rural e por último, a redução dos orçamentos que haviam de crédito subsidiado para a agricultura camponesa, para a produção de alimentos. Depois veio a assinatura dos Tratados de Livre Comércio – TLCAN, que entra em vigor em primeiro de janeiro de 1994, mas que já havia sido assinado um ano antes. Muitas pessoas pensam que as reformas começaram com o TLACAN, mas na realidade começaram muito antes com a renegociação da dívida, no final dos anos 70 disparou o preço do petróleo e houve muita entrada para o México, mas depois veio a crise da dívida e na década de 80 houve renegociação da dívida e, como imposição o Banco Central e do Fundo Monetário Internacional, deveria inciar todas as reformas neoliberais, incluindo a abertura do mercado mexicano às importações. Se alguém observa a tendência do preço que o campones mexicano recebe pelo milho, que é seu principal produto, começou a baixar desde 1982 e em 1994 já havia baixado quase 50% do preço real e desde então tem caído ainda mais. Agora com a crise dos alimentos tem ocorrido alguns picos na qual disparou o preço, mas em geral se mantém baixo, e podemos dizer que hoje em dia o campones mexicano recebe 25% do preço do milho do que recebia há 30 anos. O preço é uma maneira de ver como está mal a situação do campo, mas em todos os sentidos está mal, eliminaram a Comisión Nacional de Subsistencias Populares – Conasupo, que era a agência do governo que dava um preço de garantia, um piso ao campones. Agora a compra se faz pelo setor privado, esta competição desleal das importações baratas que vêm dos EUA, que em todo esse tempo tem mediado o milho dos EUA, colocando-o no mercado mexicano em 24% abaixo do custo de produção; pelo subsídio chega a um preço menor do que custa produzi-lo, assim é muito difícil competir contra um preço subsidiado e na produção nacional, o que se pode dizer, que em toda época neoliberal foram retirados os orçamentos públicos e subsídios para a produção camponesa e para a produção em geral e foi criado outro tipo de subsídios que são para o armazenamento e transporte, para a rede de comercialização de milho, mas esse tipo de subsídios são para as empresas multinacionais que com a privatização do Consaupo tem assumido a rede interrna de comércio de milho. O principal beneficiário do subsídio da economia do milho é a empresa Cardly, porque é dona de uma infraestrutura que recebe o subsídio que já não vai para o produtor, senão para o comerciante do milho, que o importa. Tudo tem se transformado em um benefício para a grande produção nacional e sobretudo a produção de  importação e junto com isso, esta o despojo e a guerra pela terra e por território no México, além das crescentes concessões mineiras, a construção de represas, desenvolvimento turístico, plantações florestais, desertos verdes, como se chama no Brasil. Cada vez mais expropriações de comunidades camponesas e indígenas; desde qualquer ponto de vista, está mal e tudo se vê pior. Há dois dias o presidente Peña Nieto, acaba de anunciar que depois da reforma fiscal, da reforma trabalhista, a educativa, a energética, a reforma de leis de amparo, agora vem a reforma à lei do campo, não disse qual é o conteúdo mas podemos imaginar o que vai significar: eliminação da propriedade coletiva dos ejidos e das comunidades, porque tentaram com um programa que se chama “Programa de Certificação de Direitos Ejidales – Procede”, que é um processo que o governo começou na raiz das reformas neoliberais, na qual a herança da Revolução Mexicana, o ejido e as terras coletivas, obrigavam os camponeses a passar por esse mecanismo para regularizar a terra, mas também podiam optar por um título coletivo ou por títulos individuais e o governo apostava que todos iam querer o título individual, mas a resistência camponesa era outra e mais de 70% dos ejidos que passaram pelo Procede pediram o titulo coletivo. O Governo não alcançou a privatização da terra que era um dos objetivos principais da política neoliberal. Eu temo que agora vão fazê-lo sem consultar ninguém, porque com o Procede se consultava a assembléia do ejido, de um dia para outro todos vão ser individuais.

Nesse sentido, em que beneficia, ou não, o projeto Programa de Apoio aos Direitos do Campo – Procampo?

Igual que outros programas assistencialistas, fazem parte de uma estratégia para desmobilizar as organizações e movimentos sociais, a resistência. Creio que se temos aprendido algo tanto no Brasil, como no México, é que as balas que se podem usar contra os movimentos sociais não são as balas de chumbo, mas sim as balas do assistencialismo. Agora o que se chama no México, as balas Monex, porque te dão seu subsídio na forma de um cartão de débito de uma empresa que se chama Monex, as mesmas que o PRI distribuiu na compra de votos, podemos resumir o assistencialismo como as balas Monex, porque as pessoas se desmobilizam, tudo é individual, não é através da mobilização, lhes pagam por não fazer nada. Podemos dizer, que quando o subsídio era através de Conasupo, com um preço de garantia para o milho, te pagavam por trabalhar, plantar, colher, produzir, vender, a um preço que não era muito bom, mas que era minimamente aceitável; agora em vez de sustentar o preço, deixam que o preço caiam por baixo do custo de produção e te pagam por não fazer nada, isso gera o álcoolismo. Vamos arrendar a terra a uma empresa privada e ficamos na casa para cobrar o nosso Procampo, não tem que participar de nenhuma organização coletiva, porque tudo é individual. Entre os programas como Procampo, os programa para mulheres como Oportunidades, as pessoas podem passar muito tempo fazendo filas nas cidades para fazer os trâmites burocráticos, além disso não ajuda em nada, nem sequer fortalece as forças produtivas no campo, dizem que é dinheiro na mão do campones, que pode investir na produção, mas não em uma economia onde as más políticas de preço estão abaixo do custo de produção. Tería que ser muito tonto, para investir seu Procampo em produzir e sacar somente 80 dólares no milho, além dos três meses de trabalho, é melhor gastar direto, então as pessoas têm deixado de plantar. Em Chiapas isso é muito claro, nas comunidades mistas, onde há zapatistas e não zapatistas – priistas, os zapatistas que são os que não recebem Procampo e nem Oportunidades, estão produzindo como loucos e os priistas que recebem seus pagamentos e não produzem, compram seus alimentos aos zapatistas, isso é a ironia das ironias. Estes programas estão desenhados para desarticular as organizações e movimentos sociais e também desarticular a produção camponesa em geral. Recentemente saiu um estudo em Chiapas, em que o uso que dão ao dinheiro do Procampo e Oportunidades, é para pagar os coyotes para viajar aos EUA, com esse pagamento acabam esvaziando o campo.

Poderia falar-nos um pouco sobre o projeto governamental de criação das “cidades sustentáveis”, essa proposta de tirar os camponeses de suas terras e colocá-los em pequenas colonias urbanizadas.

Construiram várias, uma ideia nefasta, a aliança do governo do Estado de Chiapas com o PNUD das Nações Unidas, consiste em que as comunidades indígenas entreguem o direito de seu território e sua terra, abandonem suas casas e vão viver em casas construídas por fundos públicos, todos juntos, em casas muito pequenas, menores que suas casas originais, sem terras agrícolas com uma maquiladora ao lado, onde podem ser mão-de-obra barata. Têm sido um fracasso total, estão quase abandonadas, as pessoas que vieram se foram, porque as casas não serviam, não havia trabalho, não havia onde plantar, agora são elefantes brancos do desenvolvimento.

Como está a situação do milho transgênico no México?

Temos uma situação muito grave com o milho, a parte do problema do preço e da competição desleal com o milho transgênico importado. México é o centro de origem do milho, onde foi domesticado e é onde há uma máxima biodiversidade genética do milho, isso não é importante apenas para o México mas para todo o mundo. Com as mudanças climáticas, as variedades que se produzem na África, Ásia ou Europa, não serão as mesmas quando o clima mude. Por isso, os que fazem os fitomelhoramentos, sempre necessitam uma variedade genética do milho para gerar novas variedades frente aos desafios futuros, mas se prejudicamos a biodiversidade original que é aqui no México, já não vai haver esse reservatório de diversidade que necesita todo o mundo. O milho é um dos três ou quatro cultivos mais importantes para toda humanidade. É um perigo para a humanidade se danificamos a biodiversidade do milho no México. A preocupação é que, se liberam o milho trangênico no México e que contaminem as variedades nativas crioulas, com os genes que vem das variedades transgênicas, o que pode gerar é uma degradação das variedades nativas e perder muito dessa biodiversidade. É por esse meio que o governo do México, através do Ministério de Meio-Ambiente – Semarnat, proibiu há muitos anos a plantação de milho transgênico no país, precisamente para proteger esse patrimônio e que não há em outros países, quiçás os países vizinhos mesoamericanos, que são parte da mesma região biológica, como centro de origem. Mas apesar disso, primeiro houve introdução clandestina e ilícita e já há contaminação em uma porcentagem baixa a nível nacional.

Isso foi durante o governo do presidente Felipe Calderón (2006-2012)?

Não se sabe quando, há várias hipóteses de como chegou, mas como o polén se move, há contaminação mas em pequeno grau. A preocupação é que, se autorizam o cultivo em grandes extensões, vamos passar de uma contaminação baixa e uma muito alta, o que aumenta o risco de contaminar as variedades locais. Se tem afrouxado um poco os regulamentos, mas sempre há existido uma disputa entre o Semarnat, que cuida do Meio-Ambiente e a Secretaria de Agricultura, Gado, Desenvolvimento Rural, Pesca e Alimentação – Sagarpa, que é agricultura. Em quase todos os países ocorre esse conflito, meio-ambiente que é do governo não quer, e agricultura que é do mesmo governo quer. Primeiro permitiram áreas experimentais ao ar livre, que estavam proibidas no início, áreas de meio hectare com variedades transgênicas, logo permitiram áreas pilotos, que já são 50 hectares ou mais, agora as empresas pediram áreas comerciais, faz pouco mais de um ano enviaram solicitações pedindo permissão para a plantação e a comercialização de uma área maior do que o país El Salvador, a campo aberto, que seria um tiro no pé para o país nativo. Imagine a quantidade de pólen que se estaria expandindo em uma plantação numa área tão grande. A sociedade civil se mobilizou, as organizações camponesas, os indígenas, as ONG’s, os ambientalistas; uma organização camponesa fez um plantão e uma greve de fome no Distrito Federal, justo quando ia vencer o prazo para emitir as permissões, porque quando uma empresa pede a permissão, o governo tem um certo número de dias para responder, se não responde nesses dias fica invalidado o processo e tem que refazer o pedido, que é um grande trâmite. No último mês, temíamos que iam lançar as permissões, mas o governo não atuou. Imaginamos que com a pressão da sociedade civil, ainda que não digam publicamente, decidiram não fazê-lo nesse momento, esperar que as pessoas de desmobilizem e agora as empresas mandaram as solicitações novamente, quer dizer que em qualquer momento nos podem surpreender com as permissões, significa que estamos em um estado de máxima preocupação.

Se refere à recente decisão do Tribunal Mexicano de suspenser as permissões?

Bom, agora na segunda volta que as empresas voltaram a pedir as permissões, um grupo de pessoas e organizações enviaram uma demanda, argumentando que o governo não tem cumprido, quer dizer, que não podem emitir as permissões sem concluir seu próprio regulamento, e como se sabe que pularam vários passos, como o estudo de impacto, que é obrigado por lei e pela Secretaria de Meio Ambiente, pediram ao juíz uma ordem impidindo emissão de qualquer permissão, até que não tenham feito o estudo de impacto, o juíz disse que sim, mas é uma ordem temporária de suspensão, que diz que até que não cumpram os requisitos, não se entregará as permissões, é uma vitória, mas é uma vitória temporária, em qualquer momento são capazes de inventar um estudo que lhes possibilite as permissões.

Falando um pouco sobre o seu trabalho com a Via Campesina atualmente. Quais são as principais demandas da Via Campesina?

A Via Campesina é muito grande, creio que é o primeiro que se deve entender. Estamos em 79 países e calculamos que são aproximadamente 200 milhões de famílias camponesas que pertencem a organizações membros da Via Campesina. Estamos na África, Ásia, América e Europa, então as demandas são diversas, podemos dizer que há categorias de demandas. Estão as demandas relacionadas com os tratados de livre comércio, com a Organização Mundial de Comério – OMC e, como alternativa, a soberania alimentar, também estão as demandas relacionadas ao tema das sementes, não aos transgênicos, não às leis neoliberais que pretendem privatizar as sementes, e sim aos sistemas camponeses de sementes, também temos o tema relacionado com as mulheres, não à discriminação e a violência contra as mulheres camponesas, nem no social e nem nas organizações, logo as demandas relacionadas à juventude camponesa, porque se seguem esvaziando o campo de jovens não haverá agrcultura em nenhum país, outras são as demandas relacionadas com e terra e o território, por um lado, a favor da reforma agrária genuína e autêntica contra a onda de expropriações de terras e desertos verdes que estamos vendo nos países, também temos todas as demandas relacionadas com a migração, os temporários e os trabalhadores assalariados do campo, que querem um tratamento e um salário digno, assim como os direitos dos migrantes que não estão em seus países de origem. Podemos falar de muitas demandas da Via Campesina, somos muitas organizações e muita gente, muitas lutas simultâneas que estão ocorrendo com a Via Campesina.

Nos poderia falar um pouco sobre a Sexta Conferência Internacional da Via Campesina que ocorreu em Jacarta em junho do ano passado?

Foi em relação aos 20 anos da Via Campesina, tocaram diversos temas; podemos dizer que há temas para fora e outros para dentro. Os primeiros, são para parar com a expropriação de terras que está totalmente fora de controle nos últimos 5 anos, tem que organizar a resistência, outro seria o tema das sementes, os transgênicos e as novas leis neoliberais nos países para privatizar as sementes e para ilegalizar as sementes camponesas, há países que estão aprovando leis que dizem que é ilegal intercambiar sementes que não são certificadas, sabemos que esse tipo de lei é uma maneira clandestina contra as sementes camponesas, por último, foi abordado o tema da violência às mulheres, esses foram os grandes e mais urgentes temas que se ressaltaram nesse momento. Agora, quanto aos temas para o trabalho interno, estamos aumentando os espaços de formação de dirigentes e dirigentas, os quadros das organizações. O que está crescendo muito rápido são os processos territoriais e de formação em agroecologia. Como fortalecer esse processo que está surgindo por dentro de todas as organizações? Que tem crescido muito e que é quase ou maior a nível interno nos últimos cinco ou dez anos e, por último, a recuperação das sementes crioulas e todos os processos relacionados com o fortalecimento dos sistemas autóctones de sementes camponesas em todos os países, assim como o tema das mulheres e a juventude, para espanto total não há jovens no campo e que se não se gera espaços reais produtivos e de tomada de decisões e participações nas organizações, não haverá futuro no campo. Pela primeira vez houve uma massiva participação de delegados e delegadas jóvens, mais ou menos 32% dos representantes das organizações e de várias outras que foram aceitas também são organizações de produtores jóvens.

Poderia nos falar sobre o tema de formação, das escolas da Via Campesina?

É um tema que vem crescendo muito rápido, a agroecologia na Via Campesina. Temos dois temas, um são os espaços de formação de agroecologia camponesa, que temos mais de 40 escolas, mas são de difententes tipos, há escolas cujo público são jóvens das organizações para que se formem como promotores e facilitadores dos processos agroecológicos e muitas dessas escolas que são para jóvens, dão títulos formais, por exemplo, a Via Campesina – Brasil tem 17 escolas técnicas que são como o ensino médio onde adolescentes estudam e saem com um título de técnico em agroecologia. Temos escolas de nível de educação superior em agroecologia e temos algumas que dão título universitário, que são os Institutos Agroecológicos Latinoamericanos – Iala, o primeiro foi na Venezuela, temos o o Iala Paulo Freire e Amazonas no Brasil, Iala Guaraní no Paraguai e teremos outros dois na Nicarágua e Colombia. Estes são os que dão títulos formais, há muitíssimas escolas de capacitação camponesa que não têm nenhuma relação com os sistemas formais dos governos, não dão títulos, mas formam pessoas para os processos e não necessariamente são dirigidos aos jóvens, mas a todos; podem ser cursos curtos, desde uma semana até um mês, e não os três ou cinco anos para ser técnico ou engenheiro em agroecologia. Na Via Campesina, a agroecologia não é mera técnica, é parte de um processo político de luta e resistência de construção de alternativas, não se pode ensinar como mera técnica. Essas são as escolas, depois temos o que estamos chamando de processos territoriais, que são fora da classe, que ocorrem no campo, como é o processo de uma família que vai deixando de usar agrotóxico e vai recuperando as práticas ancestrais e adotando práticas agroecológicas, os processos sociais se podem gerar com metodologias sociais que as próprias organizações podem usar e quanto a isso, a metodologia mais na moda na Via Campesina, se chama de campones a campones, já não são técnicos quem serão os que dizem às famílias como plantar, mas sim os camponeses que já produzem agroecológicamente e que convidam a outros camponeses a suas parcelas, para ver como fazem, o que faz dessa metodologia um processo horizontal e não vertical. A maioria dos processos territoriais são de campones a campones, de comunidade a comunidade, de cooperativa e cooperativa, desde a modalidade de transmissão horizontal de conhecimento.

Desde a sua fundação, faz um pouco mais de 20 anos. Quais consideras que são as vitórias da Via Campesina?

Bom, não há vitórias absolutas, mas sim parciais ou temporárias, uma delas foi fazer que a OMC desde 1999 até agora, em sua última reunião, não alcançou assinar um acordo de agricultura, por conta das grandes manifestações que a Via Campesina promovia, agora parece que na reunião de Bali avançaram, mais foi uma década na qual a Via Campesina conseguiu colocar a OMC em xeque, porém o que fizeram os governos e as multinacionais, como não puderam negociar um tratado global com a OMC, foram com os Tratados de Livre Comércio bilaterais e regionais, aí perdemos muito terreno, ainda que em alguns países conseguimos freiá-los. Outra vitória temporária foi neutralizar o esforço do Banco Mundial, de implementar políticas em mercados de quebra em muitos países, sem embargo, isso foi antes do auge de espoliação de terras que, com ou sem o Banco Mundial, já há uma inundação de capital financeiro de investimento nas empresas que espoliam grandes quantidades de terra, que tem expandindo todos os processos anteriores, isso nos últimos cinco anos em escala global. Podemos dizer, que temos ganhado batalhas, mas todavia na guerra, estamos em desvantagem. Outra vitória, que é a raíz da Via Campesina como um espaço de diálogo de saberes entre camponeses e camponesas de muitos lugares, agora existe uma leitura comum da conjuntura no campo, uma estratégia e projeções comuns, como é a soberania alimentar, há dirigências camponesas em todos os continentes que falam a mesma linguagem e tem a mesma análise, dizem que antes do surgimento da Via Campesina, não havia mais que uma dozena de dirigentes no mundo inteiro que tinham claro como eram as tendências globais ou uma estratégia mais para lá do local, agora são milhões que têm absoluta claridade e compreensão dos processos e estão em todos os lados, têm uma análise compartilhada de como elaborar estratégias comuns de luta, em relação a construir uma massa organizada, é um super avanço dos vinte anos de luta, ainda que comprado com a força do capital transnacional todavia ficamos curtos, mais que temos avançado, temos avançado!

Nos pode falar sobre o significado da “Soberania Alimentar”?

Creio que tem ido em várias etapas na sua evolução, te conto uma anedócta. No ano passado, na Universidade de Yale, que é uma das mais elitistas, um grupo de acadêmicos especialistas em estudos agrícolas desafiaram a vários dirigentes da Via Campesina para trocar conhecimentos. O que é a soberania alimentar? Depois de ser ignorada por muitos anos pela academia, de repente se converte em um tema. Os especialistas estavam muito bravos, a respeito de saber qual é a definição de soberania alimentar. Se vemos as declarações da Via Campesina em 1994, se fala uma coisa e depois outra, ficaram bravos porque pensaram que somos inconseqüentes. O que não entendem é que estamos em um processo de diálogo de saberes, de muitos continentes, culturas, religiões e realidades agrárias, fomos abrindo alianças com os sindicatos de trabalhadores temporários, com os consumidores, os núcleos urbanos, com os ambientalistas, os povos indígenas, os pescadores, nossa ideia é que é um processo constante de construção, um guarda-chuva que agrupa a maioria das lutas possíveis, não buscamos uma definição acadêmica, mas sim uma ideia de um conceito vivo, poder construir uma aliança de luta e isso está claro que vai mudando e evoluindo com o tempo. Nesse sentido, podemos dizer que ao princípio era uma resposta a todas correntes neoliberais de livre comércio, do GATT, da OMC, onde, de um dia para outro, tiraram todas as barreiras de impotações, a resposta era Não!, dizemos que isso era violência à soberania alimentar dos países, se colocou a soberania alimentar como o não ao livre comércio. Depois estivemos focados nos governos nacionais, temos nos dado conta que isso tem sido muito dificil e quando se alcançam política públicas, ainda que com os governos amigos como Venezuela ou Bolívia, não é o mesmo como o põe na constituição do que realmente acontece, há um processo de decepção ao tratar de alcançá-la com as políticas públicas. A soberania alimentar se constrói desde abaixo, desde o local, desde a parcela, a comunidade, o município, o território, é fazê-la por nós mesmos, então, tem mudado essa evolução. As ideias vão mudando frente à realidade.

Isso se vê nos discursos dos movimentos sociais, por exemplo, o caso do MST, os inimigos de hoje não são os mesmo que há duas décadas.

Exato, o mundo tem mudado, nós temos mudado, uma nova organização não é o mesmo que uma organização que tem vinte anos de luta e que está em contato permanentes com os aliados, em um diálogo de saberes com países de outros lugares do mundo, isso te vai mudando, e ir acompanhando os outros, aos diferentes tipos de aliados e aliadas.

Nesse sentido, a agroecologia como o saber dos povos, como parte da agricultura familiar que se opões ao que se chama de Revolução Verde.

A Revolução Verde desde a perspectiva da Via Campesina foi um enorme roubo do conhecimento ancestral das comunidades camponesas e indígenas, porque tentou invalidar o conhecimento ancestral e substituí-lo pelo conhecimento técnico, os engenheiros das empresas químicas, que finalmente funcionou. No início da Revolução Verde com todos os produtos químicos, fertlilizantes e as sementes melhoradas, parecia que se aumentava o rendimentos dos cultivos, mas chegava a um momento que o mesmo modelo gerava uma degradação do solo, a perda da biodiversidade funcional, as pragas resistentes aos praguicidas, depois do aumento dos rendimentos, veio a caída e o aumento da dívida, porque é um modelo sumariamente caro. É certo, uma parte do campesinato se iludiu, mas depois se decepcionou, diziam, estavámos melhores antes, não estávamos endividados e sim sabíamos como produzir. Há um interesse em recuperar todo esse conhecimento, diferente de todoa a agroecologia acadêmica. As organizações acreditam que a agroecologia é um conhecimento ancestral, que é uma herança e um patrimônio dos povos e que as sementes camponesas se colocam a serviço da humanidade sem cobrar garantias nem patentes. Agora se tornou uma moda a agroecologia, querem cooptar, o Banco Mundial quer fazer, a indústria orgânica, os governos querem cooptá-la, então a Via Campesina a defende, diz que não está em venda e que é nossa como organizações camponesas e indíginas.

Qual a relação da Via Campesina com a Coordenação Latino-Americana do Campo – Cloc?

A Cloc hoje em dia é a Via Campesina nas Américas, primeiro começou a Cloc, antes da Via Campesina, se pode dizer, em termos simplistas que se expendeu a Cloc em nível internacional para criar a Via Campesina. Havia certas diferenças formais entre as duas, mas agora a nova carta política da Cloc assume ser a Via Campesina, agora é o mesmo. Na Europa acaba de fundir a Via Campesina com uma coordenação de que chama Eurovia, digamos que é o mesmo.

Voltando ao tema da agroecologia. Poderia nos falar sobre a certificação dos produtos agroecológicos. Me parece que agora é mais difícil ter acesso a esses mercados, agroecológico e orgânico, pois as empresas que ocuparam este setor têm muitas exigências muito distantes dessa realidade, dessa tradição da comunidade – que é ancestral.

Bom, não só a Via Campesina, senão a tendência geral de produtores camponeses e os agricultores familiares até os pequenos agricultores nos EUA é boicotar a certificação orgânica. No início, a certificação orgânica era uma invenção das organizações de agricultores familiares para abrir seus mercados, mas logo foi cooptado e agora a certificação orgânica é uma maneira de como o agronegócio entra nos supermercados com uma produção orgânica que não é ecológica, porque são grandes monocultivos com substituição de insummos, mas um escudo que os permitem fazer isso, de esvaziar o orgânico do seu conteúdo ideológico – ecológico, isso tem sido a certificação e é cara, são pessoas externas que de maneira arbitrária impões normas. Há um boicote crescente entre agricultores pequenos à certificação orgânica, pela imposição e por representar um custo muito grande. Estão buscando mecanismos da auto-certificação, que seja coletiva, as garantias participativas, convidar o consumidor para que conheça a propriedade e que veja como é que se produz, entrar nas relações diretas com os consumidores, eliminando intermediários, porque vêem que a certificação é um cavalo de tróia que o agronegócio está usando para expropriar os agricultores familiares do mercado orgânico. Então é uma tendência geral e um debate em todos os lados, acredito que com o café os produtores ainda aceitam a certificação porque tem sido bom e têm ganhado bem, mas o resto as pessoas estão boicotando.

Uma coisa que nos parece importante é a salvaguarda das sementes. A importância de gerar encontros e feiras para trocar sementes crioulas, onde as mulheres desempenham um papel muito importante. O que você pensa desse tipo de encontro?

Sem dúvida, isso é uma tendência. As feiras de sementes estão ocorrendo em muitos países, o papel das mulheres como guardiãs de sementes, em geral, todo tipo de mecanismo criativo que se pode utilizar para reforças os sistemas. A semente camponesa é como um sistema da comunidade, de como se conserva, se multiplica, se compartilha, em muitos casos são as mulheres, mas também há homens, dependendo do país e da cultura, mas são sistemas e tem que ser protegidos e fortalecidos, porque todas as novas leis atentam contra a integridade desses sistemas. Na Via Campesina, está sendo reconhecido esses sistemas para ver como colocá-los em intercâmbios horizontais e redes de apoio mútuo, para que compartilhem diferentes métodos como são as feiras e muitas outras coisas que podem fortalecê-los, está crescendo como um tema prioritário em todos os países. Por exemplo, na Coréia do Sul temos uma organização nacional de mulheres camponesas, como o Movimento de Mulheres Camponesas – MMC, no Brasil, elas lançaram um programa interno, que cada mulher deve adotar uma semente, o que significa que ela eleja uma variedade tradicional que está em perigo de extinção e que haja um compromisso com sua comunidade de que todos os anos vai semear esta variedade e depois vai compartilhar a semente com outras mulheres camponesas e assim freiar a perda de variedades tradicionais. É outro método, para reforças os sistemas camponeses de sementes.

Peter, aproveitando que estamos em San Cristóbal e que recentemente acabou a última etapa da Escuelita nas comunidades zapatistas. Que representa para a Via Campesina que os zapatistas chegaram a suas dois décadas de resistência na defesa de sua autonomia?

Reconhecemos a fonte de inspitação que tem sido os zapatistas para todas as organizações camponesas e indígenas de todos os países do mundo, justo quando parecia que havia acabado a esperança, nasce uma luz em Chiapas que diz que não é certo que chegamos ao fim da história, mas que sim se pode, então a construção da autonomia tem sido muito improtante, há muitos intercâmbios de companheiros de todos os continentes da Via Campesina para aprender o processo autônomo das comunidades zapatistas, como inspiração o zapatista tem sido uma das mais importantes lutas desses vinte anos.

O que você pensa do exercício agroecológico que eles desenvolvem em suas comunidades?

A Agroecologia nos zapatistas é igual como da Via Campesina, eles, como nós, bucam cada vez mais o modelo da agroecologia para sua produção. Nesse sentido, tem sido diferente em cada Caracol, por ser autônomo, tem seus diferentes processos. O primeiro foi no Caracol Roberto Barrios com a formação de promotores de agroecologia, logo seguiu Oventik, depois Morelia e La Realidad, não sei se também na La Garrucha. Existem processos distintos para formar seus promotores. Em Morelia, o método é de campones a campones, nas comunidades zapatistas, como no mundo das organizações, existem diferentes enfoques de como promover a agroecologia no território. Penso que é uma questão cada vez mais forte e importante dentro do zapatismo, como é na Via Campesina, são imagens, espelhos um do outro.

Estava pensando em sua produção de café?

Em Chiapas em geral, tanto fora como dentro do zapatismo, a agroecologia cresceu muito com o café. Chiapas foi o epicentro do boom global do café orgênico, os primeiros exitos da produção camponesa-indígena de exportação de café orgânico através de coopertativas foi aqui e isso despertou muito interesse na agroecologia, mas creio, que hoje em dia, não é só o café. Para os zapatistas há muita ênfase na autosuficiencia alimentária, essa é a ideia de autonomia e não é autônomo quando a produção de alimentos vêm de fora, e quanto ao trabalho político-ideológico interno, vai na ideia de que há de consumir o que produzimos e que há de produzi-lo agroecológicamente.